Responsabilidade Social no Futebol: pela contribuição que o esporte pode dar ao Desenvolvimento Sustentável do Brasil
Marcelo Linguitte
Revista Filantropia - n. 30 | jul/ago 2007
Durante a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, o Brasil mostrou novamente sua paixão pelo futebol, torcendo, criticando e, desesperadamente, incentivando Parreira e seus jogadores. O resultado, infelizmente, não foi o que esperávamos. Mas, o futebol demonstrou, mais uma vez, sua influência sobre a vida dos brasileiros. Dois exemplos disso me impressionaram muito. O primeiro foi o poder de mobilização que o esporte tem, afinal, o país literalmente parava nos dias dos jogos da Seleção. Um outro exemplo foi a capacidade que o futebol tem de trazer temas para a discussão pública. Nesse caso, o tema foi planejamento. Também no Futebol, pouco planejamento significa fraco desempenho. O sucesso do São Paulo, tetra-campeão brasileiro, e o do Internacional, campeão mundial interclubes, também ocorreram, segundo especialistas, por sua competência em se planejar.
Com essa característica de mobilização popular, fiquei pensando o quanto o futebol não poderia contribuir para a promoção da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) no Brasil, um país que precisa tanto de bons exemplos e de lideranças positivas. Essa possibilidade é muito concreta, já que há um bom número de exemplos de sucesso de como esse esporte pode promover a RSE. Alguns exemplos:
- Em junho de 2006, durante o Congresso da FIFA, a chanceler alemã, Ângela Merkel, disse que a FIFA era “mais que um gigante do esporte, pois também reconhecia as suas responsabilidades sociais”. Seu presidente, Joseph Blatter, tem defendido muito o envolvimento da entidade com questões humanitárias;
2. O diretor técnico da UEFA, Andy Royburgh, acha que a entidade deve exercer sua responsabilidade social tentando melhorar a vida das pessoas através do futebol;
3. No Brasil, na Federação Paulista de Futebol há uma área de Responsabilidade Social, coordenada pelo ex-jogador Paulo Sérgio. O presidente da Federação de Futebol de Rondônia, Heitor Costa, crê que o Futebol é um instrumento de transformação social e desenvolve programas voltados a crianças e adolescentes em parceria com o governo do Estado;
4. O Atlético Paranaense e o Internacional também trabalham com o tema. O Atlético possui vários programas voltados à comunidade e o Internacional publicou um Balanço Social em 2006;
5. Vários ex-jogadores de futebol têm se envolvido com projetos comunitários e criado organizações para fazerem isso, como Raí e Leonardo (Instituto Gol de Letra), e Bebeto (Instituto Bola pra Frente);
6. Empresas envolvidas com Futebol, como fabricantes de produtos esportivos e patrocinadoras têm estratégias específicas na área de RSE.
É animador ver que várias iniciativas nessa área já existem, mas elas ainda são muito poucas e não aproveitam todo o potencial do esporte na promoção desses temas. Uma razão para isso é que tais iniciativas não tratam o futebol como uma “cadeia de valor”, unindo os diversos segmentos interessados (clubes, esportistas, patrocinadoras, fabricantes de material esportivo, jornalistas etc.), agregando esforços e competências. Segundo, porque as atividades desenvolvidas até hoje, apesar de extremamente importantes e meritórias, possuem, normalmente, um forte caráter assistencialista e não incorporam outros aspectos estratégicos da Responsabilidade Social. Daí, sua capacidade de transformação social fica limitada.
Creio que chegou o momento de levarmos a Responsabilidade Social de forma intensa ao Futebol. Isso é estratégico para o Brasil, pois um trabalho bem feito na promoção do tema fortalecerá a candidatura do país para a sede da Copa em 2014, já que a FIFA também está muito interessada no tema. Além disso, devemos lembrar que 2015 é o limite para a realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conjunto de metas sociais e ambientais definidas no âmbito das Nações Unidas. E ainda há muito por fazer para atingirmos as metas definidas. De hoje até 2015, são quase dez anos para que o Futebol possa dar sua contribuição para o desenvolvimento sustentado do Brasil.
É hora de todos os setores envolvidos com o Futebol arregaçarem as mangas e, de forma conjunta e planejada, desenvolverem ações concretas visando o Desenvolvimento Sustentável. Quem sabe o Brasil não faça de sua grande paixão um exemplo de cidadania e solidariedade. Aí, sim, seremos conhecidos não apenas como o país do futebol, mas como o país do futebol socialmente responsável.
